Grande médium norte-americano, semi-analfabeto e sem cultura, mostrava grande inteligência sob ação dos espíritos.

Considerando a obra de Swedenborg como uma antecipação doutrinária do Espiritismo em seu aspecto histórico, temos forçosamente que estabelecer uma ligação entre ela e a obra do médium norte-americano Andrew Jackson Davis. Enquanto Swedenborg era um sábio, Davis era semi-analfabeto, "fraco de corpo e mentalmente pobre", como nos informa Sir Arthur Conan Doyle. Apesar dessa contradição, Davis foi o continuador de Swedenborg e o precursor americano do Espiritismo. E esse fato é tão mais importante exatamente por essa contradição. Ela nos demonstra, com absoluta clareza, que o espírito domina a matéria e que o próprio conceito científico fica abalado diante do impacto das manifestações espíritas.

Andrew Jackson Davis está distante de Emmanuel Swedenborg não apenas no espaço e no plano mental. Há entre eles a distância exata de um século e, além dessa distância temporal, há também a que já mencionamos acima, no piano da cultura intelectual. Vejamos um fato curioso: Swedenborg desenvolve seus poderes mediúnicos em abril de 1744 e Davis, em março de 1844. De um a outro saltamos exatamente de meados do século 18 a meados do 19. Mas não damos esse salto sozinhos, uma vez que o espírito de Swedenborg nos acompanha. Vamos saber um pouquinho mais sobre a vida humilde e simples de Davis.

Andrew Jackson Davis nasceu em 11 de agosto de 1826, num pequeno distrito de Nova York, e desencarnou em 1910, aos 84 anos de idade. Consta que sua mãe era uma pessoa vulgar, inculta e supersticiosa, enquanto seu pai era um alcoólatra, tendo Davis recebido uma educação bastante elementar. Nos últimos anos de sua infância, começaram a se desenvolver seus poderes psíquicos, passando a ouvir vozes gentis que lhe davam bons conselhos. Simultaneamente, ele teve desenvolvida, além da clariaudiência, a clarividência. Por ocasião da morte de sua mãe, teve a visão de uma casa situada em uma região brilhante, que imaginou ser o lugar para onde ela teria ido ao morrer.


DESCOBRINDO A CAPACIDADE PSÍQUICA
Sua completa capacidade psíquica foi descoberta por um saltimbanco que fazia demonstrações de "mesmerismo" (magnetismo). Esse saltimbanco, que nada mais era do que um artista de circo, fazia parte de um grupo de artistas itinerantes que se exibia em feiras públicas, fazendo mágicas ou adivinhações para atrair a atenção das pessoas que se juntavam ao seu redor e às quais procurava vender alguma coisa.

Mas antes de continuar, vamos explicar um pouco mais sobre o mesmerismo, doutrina criada por Franz Anton Mesmer, médico austríaco (1733-1815). Segundo essa doutrina, todo ser vivo seria dotado de um fluido magnético capaz de ser transmitido a outros indivíduos, estabelecendo-se influências psicossomáticas recíprocas, inclusive de efeito curativo. Esse fluido magnético é também conhecido como magnetismo humano ou animal.

Assim, o citado saltimbanco usava em praça pública os fenômenos produzidos pelo magnetismo animal para atrair a atenção do povo. Um dia, quando foi convidado pelo homem, Davis se submeteu a uma experiência e entrou em transe sonambúlico provocado, durante o qual foi constatado que ele possuía um espetacular poder de clarividência. Para que fique mais claro, vamos explicar o que seria exatamente esse transe sonambúlico.

Esse transe é o estado em que fica uma pessoa que anda, fala e se levanta durante o sono. Na questão 455 de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, existe uma detalhada explicação para quem se interessar.


Nos últimos anos de sua infância, começaram a se desenvolver seus poderes psíquicos, passando a ouvir vozes gentis que lhe davam bons conselhos


Entretanto, para que aqueles que desconhecem ainda os postulados da doutrina espírita, citamos a seguir uma parte da referida questão:

"Para o Espiritismo, o sonambulismo é mais que um fenômeno psicológico, é uma luz derramada sobre a psicologia. É aí que se pode estudar a alma, porque se mostra descoberta. Ora, um dos fenômenos pelos quais ela se caracteriza é a clarividência, independentemente dos órgãos ordinários da vista. (...) A causa da clarividência do sonâmbulo magnético e do sonâmbulo natural é identicamente a mesma: é um atributo da alma, uma faculdade inerente a todas as partes do ser incorpóreo que está em nós e que não tem limites, senão aqueles assinalados à própria alma. Ele vê por toda parte onde sua alma pode se transportar, qualquer que seja a distância. Na visão à distância, o sonâmbulo não vê as coisas do ponto onde está seu corpo e, como por efeito telescópico, ele as vê presentes e como se estivesse sobre o lugar onde elas existem, porque sua alma aí está em realidade".

Assim, depois que foi descoberto que Davis era um poderoso clarividente, essa capacidade mediúnica foi desenvolvida por um alfaiate de nome Livingstone. Com grandes conhecimentos de filosofia e sendo da localidade onde Davis morava, o alfaiate se encarregou de continuar a desenvolver esses dotes mediúnicos e até abandonou seu ofício para dedicar todo o seu tempo ao caso, empregando a clarividência de Davis no diagnóstico de doenças. Isto porque, quando Davis entrava em transe sonambúlico provocado por magnetização, descrevia como o corpo humano se tornava transparente aos seus olhos espirituais, que lhe pareciam funcionar do centro da testa. Cada órgão aparecia claramente e com uma radiação especial e peculiar, que se obscurecia em caso de doença da pessoa.


UM EPISÓDIO INCOMUM
Mas o que aconteceu de tão especial com Davis que o colocou em evidência? O desenvolvimento psíquico dele quanto à mediunidade foi normal, igual ao de inúmeros outros médiuns da época ou da atualidade. Mas com Davis ocorreu subitamente um episódio inteiramente novo para ele e incomum para a maioria dos médiuns: na tarde de 6 de março de 1844, ele foi inesperadamente envolvido por uma força que o fez voar, literalmente, num fenômeno de efeitos físicos de transporte, da cidade de Poughkeepsie, onde vivia, fazendo uma pequena viagem num estado de semi-transe.

Quando voltou à consciência, encontrava-se entre montanhas agrestes e aí, disse ele posteriormente, encontrou-se com dois anciões que identificou como Cláudio Galeno e Swedenborg. Dois espíritos, portanto, com os quais entrou em íntima e elevada comunhão, uma sobre medicina (Galeno havia sido médico e filósofo na Grécia, mais ou menos no século 11 d.C., e seu nome tornou-se sinônimo de médico) e outra sobre moral. Como vemos, um fato muito curioso que repete, na América, o encontro do Messias com os espíritos de Elias e Moisés no Monte Tabor.

Mas Davis não está ligado apenas a Swedenborg. Ele se apresenta na história do Espiritismo como um poderoso elo mediúnico que sustenta a unidade do processo doutrinário. No passado, ele se liga com o vidente sueco, mas no futuro vai se ligar com as irmãs Fox e com Kardec. Quatro anos depois do encontro com Swedenborg, vemos Davis escrever em seu diário as anotações referentes à voz que lhe anuncia os fatos de Hydesville.


Na tarde de 6 de março de 1844, ele foi inesperadamente envolvido por uma força que o fez voar, literalmente, num fenômeno de efeitos físicos de transporte


Como estes fatos se ligam diretamente ao trabalho de Kardec, Davis também se liga a esse trabalho. Entretanto, a falta de visão do conjunto tem levado muitas pessoas a considerarem Davis um caso à parte. Chegou-se mesmo a propor a tese da existência de um "Espiritismo americano" iniciado por Davis, em oposição ao "Espiritismo europeu" de Allan Kardec.

Voltando à viagem de Davis num fenômeno físico de transporte, ele esteve ausente toda a noite e, na manhã seguinte, ao descrever para várias pessoas o local onde estivera, foi informado de que havia estado nas montanhas de Catskill, distantes aproximadamente 60 quilômetros de sua casa. E um fato curioso que também acontecia com Davis era que ele, quando em transe sonambúlico, registrava no inconsciente todas as informações recebidas no plano espiritual e depois, ao despertar, recordava-as com clareza. Servia, assim, como fonte útil de informações para os outros, embora continuasse ignorante para si próprio, pois não assimilava o conhecimento que, como médium, transmitia às outras pessoas.


CONHECIMENTOS GERANDO LIVROS
Outra coisa curiosa a respeito de Davis era que, quando estava em transe e alguém lhe fazia uma pergunta séria e objetiva, ele dizia: "Responderei a isso em meu livro". Ao completar 19 anos de idade, concluiu ter chegado o momento de escrever o livro que inconscientemente anunciava. Foi então escolhido para ele um novo magnetizador, Dr. Lyon, e a partir desse dia, quando entrava em transe magnético sonambúlico, falava corretamente a língua hebraica e demonstrava profundo conhecimento de geologia, de arqueologia histórica e bíblica, de mitologia, da origem e das afinidades das línguas e da marcha da civilização entre as várias nações da Terra. Os conhecimentos demonstrados eram de tal nível que fariam honra a qualquer estudioso, já que era como se tivesse consultado todas as bibliotecas da cristandade para alcançá-los.

Durante dois anos continuou ditando os segredos da natureza, que foram compilados no livro Filosofia Harmônica, que teve mais de 40 edições nos Estados Unidos. A esta série seguiu-se mais uma, no final de sua vida, com o livro Revelações Divinas da Natureza, no qual prevê o aparecimento do Espiritismo como doutrina e prática mediúnica. É preciso considerar que Davis deixara o banco de sapateiro, sua profissão, dois anos antes e que ele, quando em estado normal, continuava totalmente ignorante e muito lento de entendimento e inteligência.

Seu desenvolvimento psíquico continuou e, aos 21 anos de idade, não necessitava mais ser magnetizado para entrar em transe. A partir dessa época, registraram-se com ele fatos importantes, como descrever com todos os detalhes, ao assistir a morte de uma senhora, de que forma se processou o fenômeno da desencarnação e o desligamento do perispírito do corpo que perdia a vida, além do encontro da desencarnante com as entidades espirituais que a esperavam do "outro lado", falando exatamente o que dizem hoje espíritos como André Luiz e outros autores.


AS PREVISÕES DE DAVIS
Ele também fez profecias e sua força profética ficou indiscutivelmente comprovada pelo acerto de suas previsões, já que, antes de 1856, ele previu o aparecimento do automóvel e da máquina de escrever, conforme consta em seu livro Penetrália. Perguntaram a Davis, quando em transe: "Percebe algum plano que permita acelerar a maneira de escrever"? Teria ele respondido: "Sim. E quase me sinto inclinado a inventar um psicógrafo automático, isto é, uma alma escritora artificial. Pode ser construída assim como um piano, com uma série de teclas, cada uma para um som elementar. Um teclado mais baixo para fazer uma combinação e um terceiro para uma rápida recombinação. Assim, em vez de se tocar uma peça de música, pode-se escrever um sermão ou um poema".

Davis também fez algumas previsões com relação aos meios de locomoção. Disse que via, num futuro não muito distante, "transportes coletivos que correriam por estradas rurais, sem cavalos, sem vapor, sem qualquer força natural visível, movendo-se com alta velocidade e com muito mais segurança do que atualmente. Os veículos serão acionados por uma estranha, bonita e simples mistura de gases aquosos e atmosféricos, tão facilmente condensados, tão simplesmente inflamados e tão ligados à máquina que, de certa maneira, se assemelham às nossas, que ficarão ocultos e serão manejados entre as rodas da frente. Tais veículos evitarão muitos embaraços atualmente experimentados pela gente que vive em regiões pouco povoadas. O primeiro requisito para essas locomotivas de chão serão boas estradas, nas quais, com sua máquina sem cavalos, a gente pode viajar,com muita rapidez. Esses carros me parecem de construção pouco complicada".

E quando foi perguntado sobre a navegação atmosférica e aérea, disse: "O mecanismo necessário para atravessar as correntes de ar, de modo que se possa navegar tão fácil, segura e agradavelmente quanto os pássaros, depende de uma nova força motriz. Essa força virá. Não só acionará a locomotiva sobre os trilhos e os carros nas estradas rurais, mas também os veículos aéreos que atravessarão o céu, de país a país".

Bem, até agora vimos que Davis fez profecias sobre a invenção da máquina de escrever, dos automóveis e dos aviões ou outros veículos de locomoção aérea. Mas qual foi a profecia que ele fez sobre a nova revelação ou Espiritismo?


Essa madrugada, um sopro quente passou pela minha face e ouvi uma voz suave e forte dizer: "Irmão, um bom trabalho foi começado."


Quanto ao Espiritismo, Andrew Jackson Davis registrou no livro Princípios da Natureza, publicado em 1847:"É verdade que os espíritos se comunicam entre si quando um está no corpo e outro em esferas mais altas e, também, quando uma pessoa em seu corpo é inconsciente do influxo que recebe e, assim, não se pode convencer do fato. Não levará muito tempo para que essa verdade se apresente como viva demonstração. E o mundo receberá com alegria o surgimento dessa era ao mesmo tempo que o íntimo dos homens será aberto e será estabelecida a comunicação espírita, tal qual a desfrutam os habitantes de Marte, Júpiter e Saturno".

Assim, chegamos à conclusão de que Davis tinha avançado além de Swedenborg, embora não dispusesse do equipamento mental deste. Swedenborg vira o céu e o inferno, como Davis também os vira e minuciosamente os descrevera, mas ele não tivera uma visão clara da situação dos mortos e da verdadeira natureza do mundo espiritual, com a possibilidade de retorno, como foi revelado ao vidente norte-americano. Esse conhecimento foi dado a Davis lentamente.

Sobre o fenômeno que ocorreu em Hydesville, na casa da família Fox, anotações feitas por Andrew Jackson Davis, datadas de 31 de março de 1848, registram, dando detalhes sobre o acontecimento que é considerado o marco inicial da nova revelação ou Espiritismo: "Essa madrugada, um sopro quente passou pela minha face e ouvi uma voz suave e forte dizer: "Irmão, um bom trabalho foi começado - olha!" Surgiu uma demonstração viva"´. E Davis fez ainda a seguinte anotação: "Fiquei pensando o que queria dizer semelhante mensagem".


Por: Magaly Sônia Gonzales
Fonte: Revista Cristã de Espiritismo (edição 13)

Nascer, viver, morrer, renascer ainda e progredir continuamente, esta é a lei.