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LIVRE-ARBÍTRIO

Liberdade e responsabilidade coexistem no processo de evolução do espírito

Por: Juvanir Borges de Souza

Todos os Espíritos foram criados simples e ignorantes, dotados de livre-arbítrio, para vivenciarem o bem ou o mal, conforme o ensino da Doutrina dos Espíritos (O Livro dos Espíritos, q. 120 e seguintes, 83. ed., FEB).

Esse princípio da Terceira Revelação, tão importante para que o homem possa entender a si mesmo, começou a ser conhecido com Sócrates e Platão, precursores dos ensinos do Cristo e do Espiritismo. A partir dos meados do IV século antes da Era atual, Sócrates, que não deixou escritos e que foi vítima do fanatismo dos crentes nas idéias predominantes de seu tempo, tal como ocorreu com o Cristo, pressentiu várias das idéias transmitidas mais tarde aos homens, pelo Cristianismo e pela Doutrina dos Espíritos (v. “Sócrates e Platão, precursores da idéia cristã e do Espiritismo” – inciso IV da Introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo – 96. ed., FEB). Platão, seu discípulo, através de obras escritas, foi quem transmitiu à posteridade os ensinos de seu mestre.

É com as doutrinas estóicas gregas do século III a.C. e principalmente com Epicteto, filósofo estóico do século I da nossa Era, que o livre-arbítrio se constitui o fundamento essencial das idéias filosóficas estóicas e de sua consideração moral.

Epicteto, escravo liberto por Nero, exemplifica com sua própria vida a importância do livre-arbítrio na fixação da vontade individual, dos desejos e das aspirações. Mesmo como escravo, nunca deixou de ser livre, interiormente, para conduzir sua vontade, serenidade, moralidade e ataraxia. Não há como negar-se a proximidade dessas idéias com os ensinos cristãos e espíritas, que baseiam a responsabilidade individual na liberdade de escolha, no livre-arbítrio de cada ser humano, encarnado ou não.


Nas primeiras fases da existência, em que a criança não tem o livre-arbítrio e a vontade em sua plenitude, sua responsabilidade se ajusta à situação passageira


O livre-arbítrio é a expressão da vontade do Espírito no discernimento de seus pensamentos e ações. Por isso, o Criador dotou cada Espírito, desde o início de sua criação, da liberdade de pensar e de agir. Nenhum ser humano é levado à prática do mal por fatalidade, ou por determinismo da lei natural. A fatalidade, como ensinaram os Espíritos Reveladores, corresponde à escolha, feita pelo próprio Espírito, de determinadas provas que deve sofrer no plano físico, como resgate ou aperfeiçoamento. Nesse caso, o que aparenta ser uma fatalidade, uma espécie de destino, nada mais representa senão a prévia escolha do próprio Espírito, no uso de sua liberdade.

Se a aparente fatalidade ocorre no plano físico das provas, o mesmo não acontece no que concerne às provas morais, às fraquezas, às tentações ao mal, nas quais o Espírito conserva sempre o livre-arbítrio, dependendo de sua vontade ceder ou resistir às influências exteriores.

É de extrema importância a contribuição da Doutrina Espírita para o esclarecimento do que representa o livre-arbítrio, dentro da lei de liberdade, de que goza o homem, como lei natural. Por falta de entendimento do livre-arbítrio e de suas conseqüências, a maior parte das grandes religiões do passado e do presente incidem em erros graves referentes à responsabilidade individual de cada criatura humana e à compreensão da lei natural, ou divina.

Somente com o Espiritismo, o Consolador, foi possível o entendimento racional da Justiça Divina, que leva em consideração o pensamento de cada ser, sua liberdade de agir, as circunstâncias em que se encontra, os embaraços que se opõem à liberdade e à responsabilidade final do Espírito. Assim, nas primeiras fases da existência, em que a criança não tem o livre-arbítrio e a vontade em sua plenitude, sua responsabilidade se ajusta à situação passageira. Do mesmo modo, aquele que tem suas faculdades de pensar e agir perturbadas, por qualquer causa, como na idiotia e doenças mentais graves, sua responsabilidade por atos praticados será proporcional ao constrangimento que sofre. Entretanto, se o indivíduo procura cercear, conscientemente, suas faculdades de discernimento, através de drogas ou da embriaguez, sua responsabilidade duplica, já que procurou anestesiar propositalmente sua razão.

Quanto maior for a faculdade de discernimento, quanto mais desenvolvida a inteligência, maior será também a responsabilidade individual. Por desconhecerem a importância do livre-arbítrio e da vontade individual na vivência de cada um, as teologias de várias procedências procuraram ajustar as crenças, os dogmas, as práticas e cultos às diversas concepções religiosas de Deus, atribuindo-lhe, muitas vezes, injustiças que nem os homens praticam, como a “salvação pela fé”, a “salvação pelo sangue de Cristo”, o “fora da Igreja não há salvação”, o “estava escrito” e outros muitos enganos, em total contradição com as leis de Amor e Justiça que promanam do Criador. Entretanto, Santo Agostinho, que viria a ser um dos integrantes da plêiade de Espíritos Superiores sob a égide do Espírito da Verdade, já no IV século d.C., discorrendo sobre o livre-arbítrio, considerava-o como um dom de Deus e que o seu bom ou mau uso levaria o ser humano à felicidade ou à desdita.


O homem, mais esclarecido nas sociedades modernas, também é mais responsável que o ignorante, por suas ações


Se o livre-arbítrio é um dom de Deus a cada Espírito criado, para que cada qual escolha o caminho a seguir, em todas as ações de sua vida, o ideal a alcançar será a plenitude do Bem em cada um de nós.

Em mundos atrasados, como a Terra, estamos longe dessa plenitude. Essa constatação não é para nosso desânimo, mas para conscientizar-nos de que temos as condições de seguir à frente. O Cristo de Deus já traçara diretriz correta para todos os habitantes deste orbe para a libertação interior:“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” (João, 8:32.)

Hoje, temos à nossa disposição o conhecimento das leis e dos princípios superiores que nos desvendam a verdade e que nos vão libertando das amarras da ignorância e da maldade.

Quanto mais se adianta o Espírito, em conhecimento e em moralidade, mais cresce seu livre-arbítrio, sua liberdade de escolha, sua responsabilidade. Por isso, o homem, mais esclarecido nas sociedades modernas, também é mais responsável que o ignorante, por suas ações. Detentor do livre-arbítrio, o homem está sujeito, entretanto, às influenciações do meio em que vive, dos costumes e dos usos da sociedade a que pertence e também às influências dos seres espirituais invisíveis. Sua maior ou menor sujeição a todas essas sugestões depende de sua vontade, de sua maior ou menor firmeza nas convicções para obrar no bem ou no mal.

A libertação e a redenção de cada um apóiam-se na aceitação das responsabilidades e no cumprimento de todos os deveres, de ordem moral, espiritual e social prescritos nas leis naturais que regem a vida. As dificuldades para a aceitação e o cumprimento desses deveres variam de conformidade com a consciência, a vontade de cada Espírito e a capacidade que cada um apresenta dentro das diversas categorias em que podem ser classificados: maus, ignorantes, convertidos ao Bem, arrependidos, redimidos, bons, superiores.

A liberdade de que gozam os habitantes terrestres não é, nem poderia ser, de caráter absoluto, diante da condição do nosso mundo de expiações e provas. Da liberdade plena só gozam, por conquista, os Espírito puros, aqueles que chegaram ao ápice da escala evolutiva e que se colocam a serviço do Criador, a Inteligência Suprema. Jesus é o exemplo e o modelo para a Humanidade terrestre. Por isso, Ele se declarou o Filho de Deus, uno com o Pai, no sentido de cumpridor e executor de todas as suas leis. Opondo-se ao livre-arbítrio como integrante da alma humana, desde sua criação, como ensinam os Espíritos Reveladores, correntes filosóficas radicalmente contrárias a esse dom natural ainda subsistem, oriundas de pensadores e filosofias antiqüíssimos, que até hoje influenciam religiões e concepções, tais como o fatalismo, o determinismo e a predestinação.

O fatalismo absoluto procura mostrar que todos os acontecimentos, por mínimos que sejam, estão predeterminados por um poder sobrenatural, cabendo ao homem conformar-se com seu destino, bom ou mau. Para o determinismo, o homem não é livre para agir, uma vez que está subordinado a muitas contingências às quais não pode fugir, tais como a raça a que pertence, com suas inclinações e costumes, os princípios religiosos que segue, a educação, a instrução e os hábitos adquiridos, o sexo, a saúde física e mental, etc.

Já os que admitem a predestinação se baseiam na crença em um poder divino que distribui sua graça privilegiando determinadas criaturas, enquanto assinala outras para uma atuação reprovável. Dessa forma, não cabe ao homem decidir o que quer, mas simplesmente conformar-se com a vida que recebeu, que o conduzirá, após a morte, ao céu ou ao inferno.

Infelizmente, religiões respeitáveis que chegaram aos dias atuais admitiram em seu seio determinadas correntes de pensadores que aceitam e seguem essas doutrinas desviadas da realidade.

“15 – Desconhecemos a origem e o modo de criação dos Espíritos; apenas sabemos que eles são criados simples e ignorantes, isto é,sem ciência e sem conhecimento do bem e do mal, porém perfectíveis e com igual aptidão para tudo adquirirem e conhecerem, com o tempo. A princípio, eles se encontram numa espécie de infância, carentes de vontade própria e sem consciência perfeita de sua existência.

16 – À medida que o Espírito se distancia do ponto de partida, desenvolvem-se-lhe as idéias, como na criança, e, com as idéias, o livre-arbítrio, isto é, a liberdade de fazer ou não fazer, de seguir este ou aquele caminho para seu adiantamento, o que é um dos atributos essenciais do Espírito.” (Obras Póstumas, de Allan Kardec – Primeira parte – Profissão de Fé Espírita Raciocinada – p. 36, 37 – 24. ed., FEB)


Da liberdade plena só gozam, por conquista, os Espírito puros, aqueles que chegaram ao ápice da escala evolutiva e que se colocam a serviço do Criador, a Inteligência Suprema


Sem o livre-arbítrio de que foi dotado pelo Criador, o homem não teria culpa na prática do mal, nem mérito na prática do bem. Sua vontade está estreitamente ligada à liberdade de que goza. Os ensinos e esclarecimentos da Doutrina Espírita, com sua coerência diante da realidade da vida, respondem a todas as indagações de ordem filosófica, religiosa, ética e moral sobre o livre-arbítrio individual, conjugado com o determinismo de certos acontecimentos, como a fatalidade da morte física, por exemplo.

Mas é sempre necessário lembrar que há uma sucessão de existências do Espírito, na Terra e em outros mundos, e não uma única vida, como equivocadamente interpretaram as Igrejas os ensinamentos oriundos do Cristianismo primitivo. A liberdade da alma humana é tão preciosa, como parte integrante do ser, que a Humanidade, na passagem pelas mais diversas formas de organização social, chegou à conclusão de que essa liberdade interior do homem precisava expandir-se pelas instituições humanas. Assim, após milênios em que a organização social ficou sujeita ao poder dos potentados, dos reis absolutistas, aos abusos dos mais fortes, à escravidão dos vencidos e à exploração dos mais fracos, o homem começou a perceber que essa liberdade interior de que é dotado deveria expandir-se para o exterior, como luz a iluminar a convivência nas sociedades humanas.

Esse culto à liberdade, contra todas as formas de subjugação, expandiu-se com o Iluminismo dos séculos XVII e XVIII, culminando com a Revolução Francesa de 1789 e com a abolição da escravidão em diversos países do mundo. A liberdade de cada um pode expandir-se até à liberdade dos outros indivíduos, formando uma cadeia solidária.

Somente com a conquista da liberdade, dentro dos limites da responsabilidade dela resultante, foi possível o reconhecimento dos direitos das minorias, o reconhecimento e a expansão de idéias novas contrárias a outras assentes e aceitas pela maioria, a retificação de erros seculares, a reorganização de leis humanas injustas e iníquas. Do livre-arbítrio resultam as mais sérias conseqüências para a ordem social, para a educação, para a justiça, para a legislação em geral.

A Doutrina Consoladora traz esclarecimentos decisivos sobre o verdadeiro sentido do livre-arbítrio, patrimônio de todo ser humano. Está contribuindo decisivamente, com esse conhecimento, para evitar a influência perniciosa do materialismo multifário sobre a natureza do homem e sobre seu futuro.


Fonte: Revista Reformador (março 2004)

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